quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ser um pouco

É claro que se eu pudesse seria mochileira e viajaria o mundo, mas eu amo minha cama demais pra isso tudo.

Não gosto de exercitar o desapego, nasci pra estar e não apenas passar. Meus planos, que aos poucos ando conseguindo fazer, todos tem lugares fixos, pessoas fixas e de resto espero surpresa.

Viajo muito, demais, não paro nunca dentro da minha cabeça. Eu carrego um universo todo de ideias por mais que fisicamente eu não esteja em lugar interessante algum. Quando eu fecho os olhos eu não escalo montanhas, eu simplesmente voo até o topo (eu já tentei escalar mas não tenho paciencia pra imaginar uma escalada.. voar é mais rápido).

Óbvio que faço isso porque é o que minha situação financeira permite e meu comodismo exige. Só que me sinto bem onde eu estou e também sei que não posso voar de verdade.

Gosto de pisar no chão. Eu não saltaria de para-quedas nem de bung jump, não por medo mas é uma sensação que desconheço e mesmo assim não me faz falta. Me sinto tonta com a altura. Eu escalava o vão da porta na casa da minha vó. Quando chegava no teto, pulava. Era divertidíssimo porque o chão era logo ali. Pulava muros também. Pulava degraus na escada, aliás, ainda pulo. Coisas que são longe me impacientam.

Eu não conseguiria pegar carona pra ir pra uma cidade desconhecida, trabalhar de garçonete pra poder pagar minha alimentação pra logo ‘conhecer um desconhecido’ e pegar carona pra outra cidade, outro estado, país ou continente. Não conseguiria porque eu prefiro abraçar aquilo que construí até então e porque prefiro gastar meu tempo lendo livros do que viajando. Viagem pra mim é legal a chegada e só. Não gosto de aproveitar o caminho, olhar paisagens, aproveitar pra conversar. Prefiro chamar a turma, tomar uma cerveja, ligar o som e rir das novas e das velhas histórias.

Juro que não me importo de não conhecer o mundo. Tenho sim vontade de conhecer alguns lugares, mas não que seja top five de ‘coisas a fazer antes de morrer’.

E pode ser compreensível eu estar falando isso, visto que moro em Entre-Ijuís, um buraco. E posso provar que realmente é um buraco, chegue na rodovia de acesso à “cidade” e provavelmente você estará descendo, independente de que lado da rodovia tu venha. E quando for embora, obviamente, tu vai subir.

Só que eu tive uma infância feliz aqui. Fui adolescente incompreendida por todos, como qualquer adolescente em qualquer lugar do mundo, mas eu fui feliz e ainda me sinto bem morando aqui. Eu sei que eu posso ser bem mais, também não estou acomodada.

Mas a verdade é que a gente pode se sentir bem em qualquer lugar , basta estar em paz com o coração e com a consciência.

Eu juro que nunca matei ninguém.

2 comentários 02 pães e 01 cerveja:

Daniel Iserhard disse...

tche!!! Nossa, shoray agora. Achei que só eu era assim. Eu poderia muito ter escrito isso. ME sentia um excluído do mundo por achar q viajar nem é tão importante assim

susana disse...

Encontrei o teu blog através do twitter. Já que não tenho talento para a escrita gosto muito de ler o que os outros escrevem. Também compartilho um pouco da tua filosofia de se acomodar em algum lugar. Adorei o texto! Susana